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Page 012 – Welington Almeida Pinto / Reconto
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CERTO DIA, um macaco muito sabido, que morava na Mata da Tijuca, resolve fazer um bolo para comemorar seu aniversário. Como faltavam ingredientes, decide tomá-los emprestado entre os bichos.
Para conseguir ovos, correu à casa da Galinha Carijó.
- Agradeço, comadre. Amanhã eu pago, mas não deixe de ir comer um pedaço de meu bolo às quatro horas da tarde de hoje – convida o macaco.
Ao Cachorro-do-Mato pediu um pouco de leite; à Raposa um quilo de farinha; a Onça Pintada, meio desconfiada, empresta-lhe a manteiga. A cada um, o macaco fazia o pedido para comer o bolo em sua casa, só que em horários diferentes.
Macaco Sabido ajeita tudo no embornal, corre para casa e, em pouco tempo, o bolo já estava assado. Feliz da vida se coloca à janela, esperando pelos convidados.
A galinha chega na hora certa. Esfomeada, como todo galináceo nem bate na porta, corre para cozinha doidinha para bicar no seu pedaço de bolo. Lá encontra o macaco fazendo caretas, e muito aflito.
- Comadre, o Cachorro-do-Mato até parece que está no seu rastro. Dê só uma espiada pela
janela, ele já está com um pé quintal.
Ao avistar o inimigo, a galinha treme nas bases. Rapidamente se acocora debaixo da mesa, implorando ao macaco para não dizer nada ao cão, que entra farejando tudo.
- Sinto no ar o cheiro bom de galinha gorda – diz ele.
- Não é galinha, não, compadre, apenas o bolo que fiz com o leite que me emprestou. Prove um pedacinho - pede o macaco, ao mesmo tempo em que apontava o dedo para debaixo da mesa.
Coitada! O cão entendeu o sinal e saltou para cima da galinha, engolindo a pobre com penas e tudo. E volta-se para o macaco:
- Agora, a sobremesa; me sirva um pedaço de bolo.
O macaco ria-se consigo mesmo, satisfeito da sua esperteza.
- Com prazer! A Raposa já está na porta de casa, deixe a comadre entrar que vocês comem juntos.
Raposa!?... – estremece o cachorro.
- Nem pensar! Prefiro ficar longe dessa fulaninha mal inclinada.
- Depressa, depressa... Entre naquele armário e fique quietinho – aponta o macaco.
Foi a conta do cão se esconder a Raposa entra na cozinha toda serelepe, já observando:
- Vejo que o compadre reservou um cãozinho bem apetitoso para comer com o bolo. Sinto o aroma no ar.
- Qual nada, comadre. Melhor comer um pedaço deste bolo, está uma delícia! – elogia o macaco, enquanto fazia gestos com um braço, indicando o armário.
A raposa, danada de esperta, percebe tudo. Em pouco tempo, saboreava carne de cão, com pelos e tudo.
- Legal compadre! Prato e tanto!... Agora, me arrume uma boa cama que preciso descansar um pouco. O bolo fica para mais tarde.
- Deite na minha, pode dormir quanto tempo quiser – o macaco oferece todo satisfeito.
Mal a raposa pega no sono, a Onça Pintada entra na cozinha, fazendo tremer o soalho a cada passo que dava. E pondo-se a farejar o ar, exclama:
- Oh! Oh!. Sinto no ar cheiro de raposa.
- Não é não, Sá Onça. Apenas um apetitoso bolo, saído agorinha do forno – o macaco tenta despistar o felino.
- Está sozinho, compadre? Cadê os convidados? – pergunta a onça, bastante interessada.
- Os amigos que vieram, comeram bolo e se mandaram. Guardei a metade para a senhora.
- Isto não me basta, estou quase morta de fome.
Macaco Sabido sente um frio na barriga. A onça continua:
- Muito bem, o pedaço de bolo é grande e me parece gostoso. Huuummm!... Nesta casa deve haver prato com mais sabor! Meu faro não me engana, acho que o amigo preparou uma raposinha bastante tenra. Não é, compadre?
- Só tenho o bolo, comadre. Pode comer tudinho – dispõe o Macaco, piscando sem parar, enquanto desviava o dedo para o lado do quarto.
A onça, muito viva, entende tudo. Engatinha até lá, come a pobre raposa com couro e tudo. E retorna à cozinha, agradecida:
- Muito bem, compadre, você é bastante gentil. Agora, quero o bolo; ainda cabe alguma coisa na minha pança.
- Sem problemas, coma tudo – oferta o macaco, já meio aflito.
A onça, depois de se deliciar com o pedaço de bolo, diz:
- Compadre, como estou de saída quero levar a manteiga que lhe emprestei.
O macaco deu uma risada das suas e se afasta para mais longe do felino - o coração quase lhe saltava do peito, de tanto que batia. Cria coragem e diz:
- A senhora não acha que já está bem paga? Devorou a raposa, que havia engolido um cão, que tinha na barriga uma galinha, e ainda a metade do meu bolo; que mais pode Sá Onça desejar?
- Macaco mentiroso, chegou o dia da vingança! Até hoje enganou todo mundo com sua lábia. Adeus, vidinha boa! Adeus, festa de aniversário!
Dizendo isto, a onça pintada pula para cima do macaco e o devora também. Depois, lambendo os beiços de satisfação, volta para a Mata da Tijuca, sorrindo por dentro e por fora.
* Festa do Macaco Sabido - Versão livre de um conto do folclore brasileiro.
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